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Já passou mais de duas horas. Metade das pessoas que invadiram minha casa já se mandaram, metade deles eu tenho certeza que nunca vi a outra metade me prometo que não verei de novo, apesar disso ainda estamos conversando na varanda enquanto as estrelas parecem estar entrando no céu assim como as pessoas entraram no meu apartamento. Misteriosamente. Merda, odeio essa palavra. Minha terceira garrafa de vodka já está vazia e eu meio bêbado, pelo menos eu acho que foi a terceira. Ela já terminou seu quinto Dry Martini mas ainda sim não parece mostrar sinais de que está ficando bêbada, ela simplesmente continua a sorrir e conversar comigo. Não estou falando daquelas conversas chatas de colegas que se encontram depois de 20 anos e começam a dizer o que aconteceu com eles desde então, e sim uma conversa normal de amigos que se vêem todos os dias. Merda. Ela olha pro seu relógio de pulso Merda, será que ela já se cansou de conversar comigo ou será que ela já se cansou de ser educada conversando comigo e não consegue conter a vontade de ir embora. Droga. Maldita insegurança. Não sentia uma insegurança assim há anos, acho que desde que tinha uns treze anos e apesar de já escrever bem tinha um medo crescente de não conseguir exercer a profissão ou de ser bom, por sorte ou algo assim, me tornei, a única coisa que me impedia de ficar louco e ser internado em um hospício era um sentimento verdadeiro de que conseguiria apesar de muitas vezes não acreditar nesse “verdadeiro”. Merda, que pensamento deprê. Droga, ela falou algo, vi seus lábios se mechendo, mas essa maldita neurose me impediu de escutar as suas palavras. Merda.

Ela continua falando, escuto algo sobre ela ter que ir pra casa descansar antes do turno dela no hospital. Ela começa a andar em direção da cozinha eu a acompanho enquanto viro a garrafa de Vodka na minha boca pra ver se ainda tem algo lá. Nada. Merda. Passamos pelas pessoas que ainda não estão bêbadas o suficiente pra cair dormindo no chão ou as ainda sóbrias que só querem ir quando não conseguirem ficar em pé. Chegamos na cozinha onde ela deixa a sua taça de Martini e eu a minha garrafa de Vodka. Rapidamente com um olhar procuro por outra. Nada. Com esse olhar de um ou dois segundos, não vi que ela já está quase abrindo a porta e indo embora. Rapidamente corro em sua direção e abro a porta, ainda na porta ela começa a se despedir mas antes que ela possa finalizar qualquer palavra já estou falando, perguntando se ela não quer companhia até seu carro. Ela me diz que vai de Taxi mas ainda sim aceitaria a minha companhia. Fecho a porta atrás de mim, deixando pra trás todos os meus outros “convidados”. Ah, como se eles fossem sentir minha falta.

Saimos do elevador. Já estamos no hall do térreo, passando pelo porteiro, que parece estar com medo ou raiva de mim. Com sorte os dois, assim ele me deixa em paz. Nós saimos do prédio, por sorte do lado tem uma ponto de taxi. Andamos até a direção do ponto, chegando lá só tem um taxista, abro a porta do único taxi enquanto ela entre no banco de trás e ele no banco de motorista. Ela se despedi brevemente de mim e eu faço o mesmo, logo em seguida o carro já está entrando na rua enquanto o sinal abre. Olho no começo ela ir embora, depois de dois segundos começo a andar de volta para o prédio enquanto coloco minha mão no bolso da calça atrás de um cigarro. Nenhum. Merda.

Não consigo dar três passos, ouço alguém do sentido contrário me chamando, viro de novo e vejo o taxi parado enquanto o sinal está aberto. Corro em sua direção, mas antes me certificando que não tem nenhum outro carro na rua para me atropelar. Chegando perto da janela do banco de trás, vejo ela que pede pelo meu número telefônico, respondo rapidamente que não sei, mas que Gustavo sabe o dela e que pegaria com ele. Ela começa a fazer mais um de seus sorrisos, porém não vejo ele totalmente, por que atrás do taxi vem uma luz forte e que me cega por alguns segundos. Só consigo ver alguma coisa de novo depois que a moto passa “correndo” por mim, quase me atropelando, mas antes sumir, escuto o motorista da moto gritando “Puta”, provavelmente para ela. A moto desapareçe nas ruas iluminadas, mas antes disso acontecer gravo mentalmente a placa da moto: “hgv-9898″. Merda. Desgraçado.

Eu volto a olhar ela, que está raivosa e indignada com isso, mas ainda sim finge um sorriso para mim antes de ir. Vejo o taxi se distanciando da minha vista. Ainda estou na rua com o sinal aberto. Não me preocupo em ser atropelado mais, e ando calmamente para calçada e eventualmente o prédio.

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